Na viagem de carro, ela encarava atentamente sua imagem traspassada pelo vidro e, mesmo com relutância, admitia restar só enfado. Consentir naquela hora já nem fazia diferença, afinal aquele passeio não terminaria mais na sua casa, mas num lugar dito especial, que de especial mesmo só restara o passado e as ternas lembranças.
Ele falava insistentemente que a visitaria sempre, que não a deixaria só. Ela sabia que estas palavras eram mais conforto que verdade; anestesia, por assim dizer. Saber disso tornava ainda mais aguda a sua dor, por mais que previsse essa ruptura necessária.
Estava estampado no seu rosto, no seu sorriso amarelo, de poucos dentes, o terrível assombro da idade, e mais, em seus olhos de um azul já turvo, em meio à catarata, lia-se de modo silente que não. Não, ela não queria ser deixada ali. Aceitar aquele lugar travestido de repouso, de tranqüilidade, era assinar sua sentença final. Era literalmente içar a ampulheta de sua contagem regressiva.
Naquela hora, ninguém achava mais interessante sua experiência sobre o mundo, seu relato de fatos históricos, sua cultura universal. Ninguém aplaudia sua sabedoria sagrada ou a ternura típica do tempo. Naquela hora era só a idade, sua osteoporose caquética e um tanto de rugas assim.
Ela não via mais privilégio algum em ter sido parte de uma longa passagem da vida. O carro já se aproximava e não se tateava nenhuma proposição ou argumento suficientes para voltar atrás. Ela até tentou pensar, mas digamos que a lógica não fazia mais parte dos seus dias. Já na rua de trás, era mais fácil obrigar-se a aceitar os fatos.
Chegou, disse ele, já fitando-a com um olhar tão penoso, quase que auto-punitivo. Ele optou pelo silêncio por saber que palavras não são abraços e beijos de bom dia. Optou por se despedir sem lágrimas, sem dor aparente. Cingiu-a em seus braços como que buscando sua própria absolvição e neste pequeno instante de despedida sentiu-se tão frágil e vulnerável quanto ela.
Do retrovisor, mais ao longe, agora ele enxerga sozinho a rua vazia. Não há medidas para saber se foi a coisa certa. Pouco adiantaria dedos apontados ou sacras penitências, agora ele preferia alimentar uma estranha sensação de paz, enquanto uma descuidada lágrima descia pelo rosto.
E ele virou a esquina.
Sindicação
12/03/2010 @ 17:02:59
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Mas é claro que a vc ...
12/03/2010 @ 03:05:03
por Ricardinho
Eu tenho que concordar com a ...
12/03/2010 @ 02:48:49
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Se ainda existe palavra pra qualquer ...
12/03/2010 @ 01:34:46
por Grayce
Amiga linda, Como sempre, mestra nas palavras, ...
11/03/2010 @ 16:03:19
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Rochelle, É aquele caso que você me ...
04/03/2010 @ 02:56:29
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Cheeeelle, seu blog está de volta... ...
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Parabéns, Rochelle! Texto lindo e verdadeiro. E ...
02/03/2010 @ 02:50:36
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21/01/2010 @ 02:44:53
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