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Ago062009

CAMINHOS

 

Na viagem de carro, ela encarava atentamente sua imagem traspassada pelo vidro e, mesmo com relutância, admitia restar só enfado. Consentir naquela hora já nem fazia diferença, afinal aquele passeio não terminaria mais na sua casa, mas num lugar dito especial, que de especial mesmo só restara o passado e as ternas lembranças.


Ele falava insistentemente que a visitaria sempre, que não a deixaria só. Ela sabia que estas palavras eram mais conforto que verdade; anestesia, por assim dizer. Saber disso tornava ainda mais aguda a sua dor, por mais que previsse essa ruptura necessária.


Estava estampado no seu rosto, no seu sorriso amarelo, de poucos dentes, o terrível assombro da idade, e mais, em seus olhos de um azul já turvo, em meio à catarata, lia-se de modo silente que não. Não, ela não queria ser deixada ali. Aceitar aquele lugar travestido de repouso, de tranqüilidade, era assinar sua sentença final. Era literalmente içar a ampulheta de sua contagem regressiva.


Naquela hora, ninguém achava mais interessante sua experiência sobre o mundo, seu relato de fatos históricos, sua cultura universal. Ninguém aplaudia sua sabedoria sagrada ou a ternura típica do tempo. Naquela hora era só a idade, sua osteoporose caquética e um tanto de rugas assim.


Ela não via mais privilégio algum em ter sido parte de uma longa passagem da vida. O carro já se aproximava e não se tateava nenhuma proposição ou argumento suficientes para voltar atrás. Ela até tentou pensar, mas digamos que a lógica não fazia mais parte dos seus dias. Já na rua de trás, era mais fácil obrigar-se a aceitar os fatos.


Chegou, disse ele, já fitando-a com um olhar tão penoso, quase que auto-punitivo. Ele optou pelo silêncio por saber que palavras não são abraços e beijos de bom dia. Optou por se despedir sem lágrimas, sem dor aparente. Cingiu-a em seus braços como que buscando sua própria absolvição e neste pequeno instante de despedida sentiu-se tão frágil e vulnerável quanto ela.


Do retrovisor, mais ao longe, agora ele enxerga sozinho a rua vazia. Não há medidas para saber se foi a coisa certa. Pouco adiantaria dedos apontados ou sacras penitências, agora ele preferia alimentar uma estranha sensação de paz, enquanto uma descuidada lágrima descia pelo rosto.


E ele virou a esquina.


Admin · 147 vistos · 3 comentários
Ago042009

EU TENHO ESTADO TÃO ASSIM...


Eu tenho andado mesmo distraída, é fato. De distraída à incendiária foi um pulo: no sábado à noite, por exemplo, passei uma blusinha e só descobri o ferro ligado no domingo à tarde. Ontem, minutos depois de cozinhar um macarrão ( não foi Nissin, tá?!!kkk), descobri que tinha fechado a tampa do fogão com o fogo aceso. E glória a Deus pelo livramento e que me salve do esquecimento! Rsrsrs (nota zero pra rima pobre!! kkk)


Até tentei refletir o porquê de tanta desconcentração (pra não dizer palavra pior!), mas no meio do raciocínio...ahhh...me perdi. É mesmo a doida da distração! Deve ser a fase, a espera das mudanças, o desejo medroso de recomeçar. E se eu não me distrair, as horas não passam e a espera fica mais dura ainda.


Quero aproveitar as pessoas, mas sem afobação. Sem tantas despedidas, sem violência, sem insônia ou falta de apetite. Não quero resolver a saudade, nem a ansiedade no braço, no muque. É melhor ficar à toa, cruzar os dedos, esperar por esperar, que passa.


Não tenho feito boas ações, nem caridade. Na verdade não tenho sido generosa nem comigo mesma: unhas descamadas, meio pintadas, meio não; cabelos esvoaçantes; nem batom, nem salto alto. (Por favor, Rochelle, distraída sim, displicente, never!)


Chico Anísio, calculando ter poucos dias de saúde, disse que “estava de saída apenas da chatice e das obrigações dispensáveis”, ou seja, isoladas às obrigações, só restou o que é vontade, só restou distração. Hoje vou adotando esta política de últimos dias (não que eu viva na ansiedade do fim), mas acho que pra ser leve, pra remediar sofrimento, tem que estar meio aérea aos encargos. (isso não inclui deixar o ferro de passar ligado, claro!rsrs)


Também quero ler um pouco distraída, não a ponto de perder o fio da meada, mas a ponto de não me cobrar uma compreensão grandiosa, aguçada, transcendente. Também quero escrever amenidades, sem função social, sem expectativa nenhuma, letra por letra, só por coerência, apenas. Só pra esvaziar.


Hoje, tenho menos compromissos e mais passeios. E há uma forte diferença nisso. Passear é estar à toa, é assobiar antigas canções, é cruzar os braços, chutar latinhas ao vento, fazer o que bem se entende ou não fazer nada, talvez.


E por enquanto eu vou andando, ilesa dos acidentes e vulnerável aos incidentes. Que me venha o futuro!


Admin · 88 vistos · 2 comentários
Jul302009

MUDANÇAS

Tudo novo de novo e a sensação do desconhecido me apavora.


Nem tudo se caleja com o tempo. Tem certas mudanças que sempre vão dar mesmo estrelinhas na barriga. É inevitável. Aqui não existe experiência, maturidade ou receitas mágicas que vão afastar o medo das novidades.


Mais uma vez, terei que refazer as malas, sem a missão de escolher as melhores roupas para o final de semana, sem ter medo de esquecer o fio dental. Serão malas completas, malas de tudo junto, malas que não voltam mais. Agora não fica nada, não cabe mais esquecimento.


Hora de dar tchau para os amigos ainda novos, de tirar as últimas fotos e as primeiras que serão coladas nos novos porta-retratos da minha futura casa. Tempo de guardar as melhores lembranças que por certo alimentarão muitas lágrimas num futuro próximo. É hora de se despedir da paisagem cotidiana, do barulho da vizinhança, do arrojado frio de inverno.


Móveis, roupas, acessórios, tudo vai virar caixa. (quem me dera encaixotar também meus receios, minhas inseguranças tão cegas!) Tudo vai perder a forma e ser adequado a uma nova realidade. Assim será com a Rochelle também: de cara nova, numa outra cena.


Deixar um mundo que é meu dói. Sair das minhas quatro paredes também dói. Abandonar minhas relações agregadas, de igual modo. Mas dor pior, dor pra valer, é a tal da saudade. Saudade que de já afeta minha barriga, meus hormônios, meu bom-humor. Saudade que me faz sofrer de véspera, que faz chorar e dar insônia. Mas também saudade que me faz lembrar que só é saudade porque foi bom, porque foi bom demais.


O novo chega de repente até pra quem espera. Afinal, a gente sempre pensa em crescer, em ganhar mais, em conhecer novos lugares... A gente pensa, torce, faz aquela figa, mas quando chega, quando acontece, sempre surpreende, sempre é desprevenido. Acho até que é pra não perder o mal de assustar. Porque o susto é um mal necessário, acredite! O susto nos faz abrir as garras, engatilhar as armas, juntar as forças e partir para o novo com a coragem necessária dos bons começos.


Por agora, consola-me ser ainda cedo pra dizer adeus e impulsiona-me ser tarde pra voltar atrás.


Admin · 326 vistos · 12 comentários
Jun252009

SONHOS

Pra realizar alguns sonhos, tenho que abrir mão de alguns outros. Acredito que seja uma certa lei das compensações. Uma metade feliz com uma parte triste, pra não exagerar, pra não perder o limite, pra não morrer de alegria de uma vez só. Acho que uma parte também é lição, é moral da história, afinal se fosse tudo sonho realizado, não se aprenderia nada com as frustrações, não se cresceria com as decepções.


Porta na cara é que ensina a levantar a cabeça. Por isso acredito que tem sonhos que foram feitos pra não acontecer, pra ser utopia mesmo. São talvez sonhos de incentivo, pra tirar o pé do chão desta vida por vezes tão rasteira, tão cheia de um cotidiano preto-e-branco.


Queria passear de sobretudo na Europa, talvez ascender minha carreira junto a uma grande multinacional, mas prefiro saber só o português, mal dito, ainda. Queria viver na praia, aproveitando meus dias de sol, sem protetor solar, sem protetor de nada, sem responsabilidades e contas à pagar. Queria estar presente na velhice dos meus, nos dias alvos, desmemoriados, desequilibrados pela osteoporose, mas quero com a mesma intensidade estar nos quatro cantos da Brasil, sem eira e nem beira, sem nenhuma raiz a um chão só. É como se quisesse tudo, mas se pudesse pouco ou tão menos que tudo. E é nessa contradição de sonhos que vou descobrindo o que verdadeiramente quero.


À medida que escolho, abraço alguns sonhos e elimino outros. Mas assim me sinto forte cada vez que exerço minha voluntariedade, cada vez que sinto nas minhas mãos o poder que me foi dado de escolher as vias percorridas, cada vez que me sinto autora da minha própria história. (graças a Deus pelo livre-arbítrio!)


Nem sempre escreverei as melhores linhas, mas também, quem disse que há graça em vidas retilíneas? Não me importo com linhas tortas, nem o retroceder me intimida. Os fins vão justificar os meios. O que realmente vai importar no final das contas é onde vou chegar, é o fim que deseja meu coração, são os sonhos realizados e não os caminhos percorridos, até porque o erro é inevitável, uma janela certa que vez em quando eu vou abrir, mas levantar, voltar, recomeçar é tarefa de gente corajosa.


Admin · 141 vistos · 7 comentários
Jun242009

NO RECÔNDITO

Percebi que as coisas que eu não gosto também dizem de mim, decifram-me muito mais do que gostaria. Não, eu não me importo de varrer a casa, por exemplo. Levanto móveis e lustro e limpo. Vou empurrando todo o lixo sempre pelo mesmo lugar, naquela valsa, naquele ritmo. Quando vejo, junto tudo atrás da porta da sala. É aí que me reconheço, é sempre a mesma sensação. Nesta hora, esqueço que sou dona-de-casa e pior, esqueço que, por morar sozinha, não me resta qualquer escolha, senão a violência – sim, fazer coisas que não gostamos equipara-se à violência! Juntar o lixo, varrer o cantinho porco da sala, é minha agressão. Não me nego a limpar seus quilômetros quadrados, mas aquele centímetrozinho...hummmm, aquele centímetro!


Acho que com partes da nossa vida, as coisas não são muito diferentes. Podemos contar com nossas terapias, com nossos divãs compartilhados, nossos livros de auto-ajuda, podemos até rogar com reza brava, mas existem áreas em nossa vida que são nossos cantinhos de parede, nossa sujeira de estimação, nossos pecados preferidos, infelizmente. Nossa imperfeição que fica por trás da porta de entrada da sala humana.


Vamos colocando tudo no lugar: a vida emocional e seu final nem sempre feliz; as ambições profissionais e a provável frustração por não ser lá o “Seu Bill Gates” e vamos varrendo, limpando com aquela sensação aliviada de tudo novo, de cada coisa no seu lugar, até que o inevitável acontecesse e nos deparamos com aquela poeira indelével.


E na vida real, sorry, baby, não há tapetes! Nesta sala, não tem espaço pra esconder seu restinho de sujeira. Não dá pra disfarçar o desconforto e torcer que alguém segure sua pá e faça o serviço.


É hora de respirar fundo, encarar a tal violência com ar de doçura, pra não doer tanto. É hora de limpar o canto, antes que revolva algum vento que nos faça repetir o trabalho do começo e anular os nossos começos. É tempo de nos conhecermos profundamente a fim de descobrirmos nossos calos, nossa gangrena velada, encoberta de silêncio e vergonha, que se não tolhida a tempo, vem com força e arrasta nossa poeira para o que, outrora, já estava limpo.


Admin · 141 vistos · 5 comentários

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